Os dois vultos altos – um muito magro, o outro com notável corpulência – caminhavam lado a lado na calçada, numa noite gélida, enevoada e estranhamente iluminada; mesmo com a ausência de postes por aquelas bandas, o mais forte olhou para o relógio de ponteiros e conseguiu facilmente discernir a hora: 23:35. Após um certo tempo caminhando, o telhado de uma construção simples se mostrou, altivo, recortando a névoa como um detalhe adequadamente grotesco e indicando o fim do rápido passeio da dupla. Pararam ambos na soleira da porta, e o mais magro bateu na porta quatro vezes, demorando-se ritmicamente na quarta pancada. A porta se abriu sozinha, e os dois adentraram a sala com o ar de quem era obrigado a fazê-lo. O local era pobre: de fato, a mobília consistia apenas em uma mesa de madeira envernizada, com duas cadeiras de espaldar reto e uma estante ao fundo para completar a – falta de — decoração. Sem se demorar, cada um escolheu uma cadeira para se sentar, e por três exatos minutos se encararam. Por fim, o corpulento – que trazia também um robusto bigode, além de olhos muito brilhantes — quebrou o silêncio, sua voz falhando um pouco nas primeiras sílabas.
— Ela está o traindo. Minhas investigações foram demoradas, admito, mas são de veracidade indubitável. Ela está o traindo.
— Dê-me os detalhes. — Falou o magro, apoiando elegantemente um braço na mesa e brincando com o polegar, enquanto o outro revirava os bolsos do sobretudo e tirava um envelope abarrotado do fundo. Colocou-o na mesa, e recomeçou a falar enquanto o magro apanhava delicadamente o envelope e passava foto após foto por seus olhos, todas corroborando o que o corpulento afirmara.
— Começou ano passado. Ela sai de casa impreterivelmente às 8:30, leva o cachorro para dar um passeio, toma um suco na lanchonete natureba perto do Sally’s, volta pra casa, deixa o cachorro e some até o meio-dia, que é quando retorna para casa, meia hora antes de você chegar. Nesse período em que desaparece, descobri que reaparece sadomasoquistamente na casa de Orlando Acevedo, na 5th. Por duas vezes também se encontrou com um outro homem, que suspeito ser ninguém menos que Andrea Moretti, das Relações Públicas. Também tem um pequ…
— Espere. — Interrompeu o outro, calando-o com um aceno de mão. Tudo ficou quieto, o silêncio só sendo entrecortado pelo flap-flap do magro passando as fotos compulsivamente diante das órbitas, virando algumas de cabeça para baixo e analisando com a mão no queixo outras, em que a amada aparece apenas de calcinha, amarrada igual a um frango no meio da cama. Por fim, o flap-flap parou, o que o corpulento interpretou como sinal para prosseguir com o falatório.
— Ela abriu, secretamente, uma conta paralela em outro banco, e vêm transferindo U$ 7.000 a cada mês, começando por fevereiro. Data dessa época também a aquisição de um imóvel bem localizado no centro, em nome de Mr. Orlando Acevedo. Há mais coisas ainda; revirei bem o lixo, e descobri que ela se internou por três dias no PS local, e o diagnóstico foi positivo para HIV. Se treparam sem camisinha, acho bom voc…
— Eu sei o que é HIV, obrigado. Pare de flertar comigo. — Disse o outro, parecendo estar irritado pela primeira vez desde o começo da conversa.
— Não preciso flertar com você, meu chapa. Assim que acabar isso, vou para o Lights of Paradise encontrar com a sensual Ellie, que já deve estar acesa me esperando. — O corpulento fez gestos obscenos, esfregando os próprios mamilos fingindo que tinha seios, e isso fez o magro rir. Por uns minutos, conversaram sobre indecências e mulheres, e o foco da conversa foi completamente desviado do assunto principal; pareciam que eram apenas amigos chacotando o sexo oposto. Por fim, o mais magro se levantou, alisando as vestes apenas por fazer, erguendo a mão ossuda para o outro a apertar.
— Bem, é o fim. Investi bem meu dinheiro em você. Uma boa noite, e nos vemos por aí, espero. — Disse reflexivamente, mal ouvindo as palavras corteses da resposta do outro. Sumiram na noite tal como vieram, um pra cada lado dessa vez.
Alguns dias depois, uma pequena carta chegou na correspondência matinal do corpulento. Participava-lhe o casamento do magro com a infiel amada.
